A Palestra de Lin

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                O salão do Centro Cultural de Pequim estava repleto, e havia um clima de grande expectativa com a chegada de Mestre Lin, que abriria o Quatro Encontro Empresarial da China. A aparência vigorosa, o olhar vivo e a voz firme não denunciavam sua idade.

‘’ É uma grande honra para mim ter sido convidado a dizer algumas pequenas palavras de abertura nesse encontro de tanta importância para o empresário chinês. Fiquei encantado com o desenvolvimento da cidade de Tóquio, que não visitava há quatro anos. Quero felicita-los pelo grande trabalho que tem sido feito aqui, na direção de um contínuo progresso. As grandes construções de formas espetaculares são surpreendentes, especialmente para mim que vivo nas montanhas, onde tudo é muito simples e permanece igual por gerações. ‘’

‘’ Observei as pessoas, que me parecem todas muito ocupadas, certamente com afazeres importantes, indo de um lado para o outro, a pé, de carro, de bicicleta. Pensei que teriam tempo para observar e admirar todo esse progresso, que revela a grande capacidade da mente humana. É possível que apenas os turistas, como eu,  tenham tempo para isso. Por outro lado, talvez vocês tenham que viajar, para terem tempo de admirar o que outros fizeram. ‘’

‘’ O que temos feito com o tempo? A vida moderna parece mudar nossa relação com o tempo e com nós mesmos. Talvez, dentro de um conceito de que o tempo não pode ser desperdiçado, porque temos que constantemente realizar para progredir, competir e ultrapassar, estejamos deixando para trás, esquecidas, algumas práticas que sempre se mostraram muito importantes. Essas práticas dizem respeito a um desenvolvimento interior, subjetivo, que envolve níveis mais sutis da Pessoa. ‘’

‘’ Na véspera de deixar as montanhas onde vivo, para vir a Pequim, sentado em minha varanda contemplava  a paisagem em companhia do meu cachorro. Ele olhava, tanto quanto eu, as montanhas ao longe, as formas do pinheiral e o céu incrivelmente azul. Seu olhar demonstrava profunda contemplação. Permanecemos, nós dois, assim quietos, simplesmente admirando a beleza da manifestação de Deus, através da natureza. Tudo parecia completo. Um estado de profundo bem-estar existia dentro de mim, e penso que nele também. Por um bom tempo não nos movemos. Não precisávamos. Tudo estava ali naquele simples momento. ‘’

‘’ Será que estamos esquecendo a simplicidade que a alma necessita para experimentar a felicidade? Quando recebemos pessoas que vêm para o retiro em nosso monastério, a maioria delas diz sentir-se muito feliz ali. Por que, se temos tão pouco a oferecer? Talvez, porque possam desfrutar do tempo. Tenham tempo para estar consigo mesmas, para olhar, comtemplar, saborear, escutar e experimentar o silêncio. ‘’

‘’Acredito que todos vocês, que são os construtores do progresso, da tecnologia, provedores das descobertas em todas as áreas da ciência, têm um grande desafio. O desafio de não perder a sensibilidade. Não perder a grandiosa simplicidade do Ser. Quero dizer-lhes que confio que poderão realizar grandes conquistas, sem perder o contato com o próprio interior. Perder o contato com nosso interior equivale a perder a ligação com nossa fonte energética, o nosso centro reorganizador e orientador. ‘’

‘’ Nossos ancestrais desenvolveram diferentes práticas para preservar esse contato, porque entenderam que ele é fundamental para uma vida plena e eficaz. Não tinham nenhuma intenção de alienar-se do mundo através delas, mas no contrário, de reabastecer-se dentro de si mesmos para aproveitar ao máximo todas as possibilidades inerentes ao viver. ‘’

‘’ Todas nossas realizações dependem do uso prático de nossos potenciais. Eles têm que ser disponibilizados para o mundo. Porém, nossos potenciais estão enraizados não só em nossas diferentes inteligências, mas também em nosso universo emocional, afetivo e espiritual, que determina em grande parte nossa capacidade para o bem-estar, felicidade e disponibilidade para amar. Por isso o contato com nossos interior não pode ser esquecido, nem negligenciado jamais. ‘’

‘’ Admiro e respeito a todos os que estão à frente dessa grande empreitada do desenvolvimento e evolução humana, porque muito de nosso futuro dependerá disso. Na minha pequenez pouco posso fazer, mas confio que aqueles que ocupam as lideranças trabalharão nesse sentido, contribuindo assim para que todos nós possamos experimentar a felicidade que tanto buscamos e, ao mesmo tempo, oferecendo às próximas gerações o exemplo de um caminho para a realização plena do homem. ‘’

‘’ Agradeço a todos por essa oportunidade e desejo que tenham um encontro fértil em ideias, profundo em trocas, onde o benefício e todas as pessoas seja o grande objetivo.’’

Fazendo uma reverência à plateia que o aplaudia, Mestre Lin retirou-se.

One thought on “A Palestra de Lin

  1. Surpreendentemente tocante. Procuro sempre me conectar com esses instantes. Faço deles o meu pouso, onde me permito apreciar o quanto posso Ser Especial.

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