IMPERMANÊNCIA

Cheng sentou-se no jardim do mestre observando a impermanência. Na noite anterior, ele lhe havia dito que a vida existe na impermanência. Sim, ele podia constatar isso dia a dia no jardim do mestre, olhando a contínua mutação da natureza no ir-e-vir das estações. Sem nenhuma resistência, a natureza fluía no tempo, ensinando ao observador como viver na impermanência.

O mestre dissera ainda: “Descubra o permanente que existe em você, ainda que exista impermanência em sua vida, seu corpo, pensamentos e emoções. Nós somos tempo que flui. Nossa vida existe no tempo e ele flui. Se não aprendemos a fluir no tempo, sofremos. Ancorado no permanente que existe em você, flua no tempo que rege a impermanência.”

Agora, ali sentado na sombra da cerejeira, voltava o olhar para o tempo que já não era, e lembrava-se de sua infância no campo. Nascera numa pequena aldeia de cultivo de arroz no sul da China. Numa casa simples, mas ampla, morava com seus pais, três irmãos e os avós maternos, já bastante idosos. Lembrava-se do ciclo do dia, começando no alvorecer, quando via seus pais saindo para o arrozal, e terminando quando todos sentavam-se em volta da mesa, ao anoitecer, para a refeição. Sua mãe servia cada tigela. Seu pai fazia oração de agradecimento, com sua voz firme, mas que deixava perceber o cansaço do dia. Depois disso, seu avô contava histórias de outras eras, que haviam se tornado passado no fluir do tempo.

Tudo isso ia bem distante. Muitas estações, plantios e colheitas haviam se sucedido ao longo dos anos. Ele não era mais o menino que escutava as histórias com a cabeça em sonhos. Muitas coisas haviam mudado em sua vida, seu corpo e sua mente. Mas algo havia permanecido e permaneceria pra sempre. O que havia permanecido?

Repentinamente, um barulho tirou-o de suas contemplações e trouxe-o para o presente. Olhou à sua volta. Era um enorme lagarto verde, que permaneceu por alguns instantes parado, estático, como que captando o que se passava em torno. De súbito, moveu-se com extrema rapidez e desapareceu em meio às folhagens.

Olhando o lagarto verde, Cheng deu-se conta da grande roda do tempo movendo-se num eterno movimento, onde nada permanecia e tudo retornava. Quantas vezes, em diferentes tempos, havia existido um lagarto verde que surgia e desparecia, um menino que ouvia histórias e sonhava no colo do avô, uma mãe que servia a tigela de arroz, um pai que orava? Quantos ciclos de dias haviam existido com o sol nascendo e se pondo? Quantas vezes tudo havia terminado e recomeçado no fluir do tempo?

Mas o que moveria essa roda? Que ou quem estaria sempre ali permanentemente gerando o tempo que a tudo torna impermanente?

De repente, ouviu a voz do mestre atrás de si: “Cheng, você sabia que no núcleo de cada partícula do Universo existe amor?…”

Livro: Para Tornar a Vida Bela – Berenice Kuenerz

One thought on “IMPERMANÊNCIA

  1. Existem trechos belissimos e que muito me emocionam. Narrativas que me conectam a algo. E esse Algo torna-se inexpressivo para eu poder descrever. Sao movimentos de pura intimidade com o tempo.. E quando releio o livro, Para Tornar a Vida Bela, as vezes me deixo conduzir.. Talvez seja esse o objetivo do Mestre. Mas ao mesmo tempo, me trazer de volta para o permanente presente. Eu tambem compreendo instataneamente que no “nucleo de cada particula do Universo existe amor.”

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