QUANDO O PENSAMENTO É VENCEDOR

Temos cuidado de nossos pensamentos tanto quanto de nossos carros, celulares, computadores, roupas e demais pertences???

Roger Walsh, professor de psiquiatria, filosofia e antropologia da Universidade da Califórnia, fala em seu livro “Espiritualidade Essencial”: “A influência  ( de nossos pensamentos ) é tão forte que Buda iniciou os seus ensinamentos com as palavras:

Somos o que pensamos.

Tudo que somos surge com nossos pensamentos.

Com nossos pensamentos construímos o mundo…

É bom controlá-los,

E dominá-los traz a felicidade.

Mas como eles são sutis,

Como são difíceis de entender!

A missão é aquietá-los,

E governá-los para poder encontrar a felicidade.”

Walsh narra a seguinte historia: Uma senhora idosa estava sentada á beira da estrada fora da cidade quando foi abordada por um viajante, que lhe perguntou: “Que tipo de gente vive nesta cidade?”

A senhora respondeu com outra pergunta: “Como eram as pessoas em sua cidade natal?

“Terríveis”, disse o viajante enfurecido. “Mentirosas, trapaceiras, incompetentes, não dava para confiar em ninguém. Sair de lá me deu muita alegria.”

“A gente dessa cidade é igualzinha”, respondeu a anciã.

Pouco tempo depois ela foi abordada por um segundo viajante que lhe perguntou também sobre as pessoas da cidade.

Novamente ele perguntou: “Como eram as pessoas em sua cidade natal?”

“Maravilhosas!” exclamou o viajante. “Excelentes, honestas, trabalhadoras, foi muito bom conviver com elas. Fiquei triste de sair de lá”.

“A gente daqui é igualzinha”, respondeu a senhora.

Desenvolvemos nossos pensamentos de acordo com o que acreditamos ser verdadeiro. O que pensamos e sentimos é o resultado de enorme material armazenado em nossa memória subconsciente. Todo um sistema de crenças e visões de mundo vai sendo construído dentro de cada um de nós ao longo de nossas vidas. Parte desse material foi herdado de nossos pais e demais ancestrais. Portanto, se não abrirmos mão de certas crenças, verdades e certezas repetiremos as ações e reações que não funcionam, e continuaremos repetindo lamentos pelo que não tem funcionado em nossas vidas.

Outra boa historia Zen contada por Walsh:

“Um professor se apresentou o mestre Zen dizendo que gostaria de aprender algo sobre o Zen.

“Há, muito bem!”, disse o mestre Zen. “Entre por favor.” Sentaram-se e o mestre começou a falar sobre a importância vital da ética no Zen.

“Ah, sim”, interrompeu o professor. “A ética é um tópico fascinante. Estudei varias ramificações da ética. Escrevi um livro sobre o assunto”. Tomou um impulso e começou a discorrer sobre a ética.

“Ah, entendo”, disse o mestre. Quando o professor fez uma pausa o mestre começou.

“No Zen a motivação correta para fazer ou dizer alguma coisa é muito importante e por essa razão tentamos praticar apenas aquilo que ajude a verdade.”

“Bem”, apartou o professor, “existem varias teorias que sustentam esse ponto de vista, contudo devo dizer que acho falhas em todas elas”, e começou a dissertar sobre o tema.

“Hmmm, entendo”, disse o mestre. Quando finalmente o professor fez uma pausa o mestre perguntou: “Aceita chá?”

“Sim, obrigada”, e o mestre começou a encher a xícara do professor, encheu a xícara até que encheu o pires também. O professor estava atônito. Quando começou a escorrer pelo colo, pulou gritando:

“Pare! Não vê que a xícara já está cheia? Não dá para mais!”

“Ora, é verdade, estou vendo”, sorriu o mestre. “E voce não vê que sua mente esta completamente cheia de idéias velhas e não aceita as novas? Portanto não há condições de você aprender o Zen.”

As situações não são os principais obstáculos, mas a maneira como lemos, interpretamos e definimos a realidade. Os maiores impedimentos estão dentro de nós, através de memórias, crenças, percepções fixas, estagnadas e distorcidas. Por essa razão Buda deu muita importância ao desenvolvimento do foco, da atenção e da clareza da mente, para percebermos a realidade sem ilusões, fantasias ou distorções.

Temos muitos limites internos. Estamos entrincheirados em idéias defensivas, velhos conceitos e perspectivas desatualizadas. Por essa razão o exercício da observação dos próprios pensamentos é um dos mais poderosos para entendermos como nossa própria mente pode criar muitas dores e enganos, através de percepções viciadas e pensamentos que reforçam fixações. Poderemos perceber com bastante clareza como e onde estamos aprisionados dentro de nos mesmos.

O pensamento é vencedor quando nos leva para além de nossos limites, ultrapassa nossos muros, desfaz as defesas desnecessárias e dissolve fixações. O pensamento é vencedor quando nos conduz para além de nossas acomodações, ativa nossa energia e nossa coragem e nos lança no desafio do novo.

Não existe mágica externa capaz de operar uma real transformação em nós. A transformação de nossos pensamentos é trabalhosa e requer prática, determinação, persistência, disciplina e abertura. Porem, os que foram até o final dessa estrada interna contam que o beneficio é indescritível em palavras, porque é um estado de profunda liberdade e espontaneidade.

O trabalho para que nossos pensamentos se tornem vencedores inclui desenvolvimento de atenção e concentração. Uma “mente errante” dificilmente produzirá pensamentos vencedores, porque lhe faltará força e firmeza. Sem atenção e concentração não ultrapassamos limites, porque não chegamos nem a enxergar onde eles se encontram.

Uma outra boa historia Zen contada por Walsh:

“Um aluno Zen adquiriu um texto espiritual. Trouxe para seu mestre e lhe pediu que escrevesse no livro algumas palavras de inspiração.

“Certamente”, respondeu o mestre, e escreveu por um segundo e, em seguida devolveu o livro. O aluno olhou e viu somente uma palavra: “Atenção!”

O aluno desapontado pediu ao mestre: “Não quer escrever mais alguma coisa?” e estendeu novamente o livro para o mestre.

“Esta bem”, disse o mestre, e dessa vez escreveu por vários segundos.

O aluno pegou novamente o livro e leu: “Atenção! Atenção! Atenção! Atenção!”

A atenção e a concentração é sempre no momento presente. O pensamento de passado ou de futuro, em via de regra, não são pensamentos vencedores, porque roubam energia do momento presente. O pensamento do que ocorreu ontem terá sempre uma certa deformação de memória. O pensamento de futuro trará sempre uma incerteza. O único pensamento que poderá se aproximar mais da realidade é o que surge no Agora. A única possibilidade de romper limites é no Agora.

Uma regra básica para trabalhar os pensamentos é não lutar contra ele, mas observá-lo. Dar um passo atrás, descolar e olhar para ele. Esses pensamentos começam a perder o controle que exercem sobre nós quando os identificamos. Qualquer coisa perde, pelo menos parte de sua força, quando é descoberta e identificada. Se começar a praticar a observação de seus pensamentos irá descobrir e entender suas fixações e limites. O objetivo da observação e da reflexão é a “compreensão e não a condenação”. Essa pratica, pouco a pouco, irá modificando nossa energia.

Walsh recomenda: “O primeiro passo fundamental, quando se reconhece estar sob o controle de uma fixação, é parar o que se estiver fazendo. Relaxar e respirar bem. Gastar alguns minutos para examinar a fixação”. Reconheça que são apenas pensamentos. Pode-se trocá-los por outros e dar um novo passo.

“Por serem tão sutis e rápidos, os pensamentos são mestres da sedução, fazendo com que acreditemos que o que dizem é invariavelmente verdadeiro.”

A prática é tornar sua mente cada vez mais consciente: ”A mente consciente é a mente que se cura por si só.”

Berenice Kuenerz

2 thoughts on “QUANDO O PENSAMENTO É VENCEDOR

  1. Quero falar de vc Berenice. Voce postou ontem um comentario sobre as pessoas que cruzam e ficam em nossas vidas, mostrando de como podemos encarar as coisas rotineiras e simples que nao ousamos experimentar. Voce” e’ a Cara,” como diz Roberto Carlos. Posso lhe dizer hoje me permito coisas que ate’ entao trancafiei. E descobri….. como e’ bom…..nao, e’ muito BOM!! Ah, terça-feira sonhei com voce. Um daqueles sonhos maluquinhosrsrrs ….bjs. Como sempre, o texto e primoroso.!!!!!!!!

  2. Olá Berenice

    Ao te acompanhar como parceiro e amigo me fascina-lógico aqui no presente- como voce está sempre com a perspectiva do novo que se manifesta no momento presente, em teu coração. E deste espaço, sua creatividade nos toca de forma mágica com a energia da atenção, para que possamos também desfrutar deste novo que não se oculta .

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